O que é a retina — e por que o descolamento é urgente
A retina é uma fina membrana de tecido nervoso que reveste a parede interna do olho. Com menos de meio milímetro de espessura, ela capta a luz e a converte em sinais elétricos que o cérebro interpreta como imagem.
Para funcionar, a retina precisa estar em contato direto com o epitélio pigmentar — a camada subjacente que fornece oxigênio e nutrientes. Quando se descola dessa camada, o suprimento metabólico é interrompido e as células fotorreceptoras começam a sofrer dano.
O descolamento de retina é uma emergência oftalmológica. O prognóstico visual depende de quanto tempo a retina permaneceu descolada — e, especialmente, se a região central (mácula) foi afetada.
Ao contrário de outras condições que permitem uma consulta agendada nos próximos dias, o descolamento de retina exige avaliação no mesmo dia em que os sintomas aparecem.
Os três tipos de descolamento
Nem todo descolamento ocorre pelo mesmo mecanismo. Há três formas principais:
Regmatogênico
O mais comum. Um rasgo na retina permite que o líquido vítreo penetre por baixo da membrana e a descole progressivamente. Associado ao envelhecimento, à miopia alta e à degeneração lattice.
Tracional
Membranas fibrosas que crescem sobre a superfície retiniana — frequentemente por retinopatia diabética — exercem tração mecânica e puxam a retina. Progressão mais lenta.
Exsudativo
Líquido se acumula abaixo da retina sem rasgo identificável. Pode estar relacionado a processos inflamatórios, doenças vasculares ou tumores intraoculares.
Quem tem maior risco
Alguns fatores aumentam a probabilidade de descolamento de retina. Conhecê-los permite um acompanhamento preventivo mais cuidadoso:
- Miopia alta (acima de −6,00 dioptrias): o globo ocular mais alongado resulta em retina periférica mais fina e mais suscetível a rasgos.
- Histórico familiar de descolamento de retina: fator de risco independente, especialmente associado a outros fatores.
- Cirurgia de catarata prévia: especialmente quando houve complicações durante o procedimento.
- Degeneração lattice: área de adelgaçamento periférico da retina, identificável ao exame de fundo de olho com dilatação.
- Descolamento do vítreo posterior (DVP): evento natural e comum a partir dos 50 anos, em que o gel vítreo se separa da retina. Na maioria dos casos é benigno, mas pode causar rasgos no processo.
- Trauma ocular: impactos diretos no olho podem criar rasgos retinianos.
- Diabetes mellitus: risco de descolamento tracional em pacientes com retinopatia diabética proliferativa.
Se você se enquadra em algum desses fatores, o exame de fundo de olho com dilatação faz parte do acompanhamento oftalmológico regular recomendado — mesmo sem sintomas.
Sintomas que exigem avaliação no mesmo dia
O descolamento de retina não resolve espontaneamente. Qualquer um dos sinais abaixo é indicação para avaliação oftalmológica imediata — no mesmo dia, se possível. Não aguarde a consulta de rotina.
-
Fotopsias — flashes de luz Sensação de relâmpagos, faíscas ou piscadas no campo visual, especialmente na periferia. Indicam tração mecânica sobre a retina: o tecido nervoso, ao ser estimulado mecanicamente, gera sinais interpretados como luz.
-
Miodesopsias súbitas ou em grande quantidade Moscas volantes (floaters) são comuns e, na maioria dos casos, benignas. O que exige atenção é o aparecimento súbito de grande quantidade de pontos, fios ou sombras — especialmente acompanhado de flashes. Pode indicar sangramento vítreo por um rasgo retiniano.
-
Sombra ou "cortina" no campo visual Perda progressiva de um setor do campo visual, como se uma sombra avançasse. Representa a área já descolada. Quando essa sombra atinge o centro, a mácula foi envolvida.
-
Embaçamento súbito da visão central Quando o descolamento envolve a mácula, a acuidade visual cai de forma abrupta. É o estágio mais avançado — e o que mais impacta o resultado visual final.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico é realizado por meio do exame de fundo de olho com dilatação pupilar (midríase farmacológica). Com lentes específicas e luz de fenda, é possível avaliar toda a extensão da retina, identificar rasgos, áreas de degeneração e medir a extensão do descolamento.
Quando a visualização do fundo de olho está prejudicada — por exemplo, em casos de sangramento vítreo intenso ou catarata densa — a ultrassonografia ocular em modo B permite avaliar a retina indiretamente e confirmar o diagnóstico.
Opções de tratamento cirúrgico
O tratamento do descolamento de retina é sempre cirúrgico. A técnica escolhida depende do tipo, extensão, localização e características individuais do caso — por isso a avaliação detalhada é indispensável antes de qualquer indicação.
Vitrectomia posterior
Acesso ao interior do olho por incisões mínimas, remoção do vítreo e tamponamento da cavidade com gás expansível (SF6 ou C3F8) ou óleo de silicone. É a abordagem mais versátil — permite tratar casos complexos, incluindo descolamentos extensos, gigantes, com tração ou com proliferação vítreo-retiniana.
Retinopexia pneumática
Injeção de gás expansível diretamente na cavidade vítrea, sem vitrectomia, combinada com crioterapia ou fotocoagulação a laser. Indicada para casos selecionados: rasgos únicos, pequenos, localizados no segmento superior da retina, sem descolamento extenso.
Introflexão escleral (cerclagem)
Implante de uma faixa de silicone na parede externa do olho, que "recua" a esclera em direção à retina e fecha os rasgos por aposição. Técnica com décadas de história, ainda indicada em casos específicos, principalmente em pacientes jovens sem descolamento do vítreo posterior.
A indicação da técnica é feita caso a caso, após avaliação completa. Em situações complexas, mais de uma abordagem pode ser combinada.
O que esperar no pós-operatório
O pós-operatório varia conforme a técnica utilizada. Alguns pontos que se aplicam à maioria dos casos:
- Posicionamento: quando gás é utilizado, manter a posição específica indicada (geralmente face voltada para baixo ou para o lado) é parte essencial do tratamento. A orientação médica deve ser seguida rigorosamente.
- Visão durante a recuperação: a presença de gás causa embaçamento temporário, que diminui conforme o gás é reabsorvido — processo que pode levar algumas semanas, dependendo do tipo de gás utilizado.
- Restrições: viagens aéreas são contraindicadas enquanto houver gás no olho, pois a variação de pressão pode causar expansão do gás e complicações. Atividades físicas são retomadas gradualmente, conforme orientação.
- Acompanhamento: as consultas de retorno são mais frequentes no pós-operatório imediato e diminuem conforme a retina se estabiliza. Sintomas novos durante a recuperação devem ser comunicados ao médico sem aguardar a próxima consulta agendada.
Quando procurar ajuda
Flashes de luz, aparecimento súbito de grande quantidade de floaters ou qualquer sombra no campo visual são sinais que justificam avaliação oftalmológica no mesmo dia — independentemente do horário ou da disponibilidade de agenda.
Se você tem miopia alta, realizou cirurgia ocular previamente ou tem histórico familiar de descolamento de retina, o exame preventivo de fundo de olho com dilatação faz parte do acompanhamento recomendado. Áreas de risco como rasgos e degeneração lattice podem ser tratadas precocemente, antes que o descolamento ocorra.